Autor: Erick Fiszuk
Até aqui, muitos conceitos e explicações foram apresentados sobre o esperanto, mas não pude deixar de criar uma seção que julguei importante: uma lista das mais freqüentes perguntas e suas respostas (ou, como muitos chamam, FAQ - "Frequently Asked Questions" ou "Perguntas Freqüentemete Feitas" ou, a título de curiosidade, em esperanto, ODD - "Ofte Demandataj Demandoj") indagadas por pessoas que pouco ou nunca tiveram contato com esse projeto de idioma internacional. A idéia me veio à cabeça quando muitos colegas de minha escola e outros conhecidos me perguntavam o que é o esperanto, por que ele é parecido com tal idioma, quem o criou, quando ele foi criado e outras perguntas que qualquer pessoa pode fazer a você. Por isso, meu objetivo é não só dar dicas de resposta para tais perguntas, mas sintetizar boa parte de tudo o que já expressei anteriormente, mas agora de uma forma clara e direta. Se alguém lhe perguntar sobre o esperanto, jamais se embarace! Orgulhe-se de mostrar que você apóia uma solução democrática e fácil para a resolução dos problemas causados pelas barreiras lingüísticas!
1) Afinal, o que é o ESPERANTO?
O esperanto é um idioma artificial criado para ser usado entre pessoas que falam idiomas diferentes, sem que um seja obrigado a saber o idioma do outro, colocando os dois falantes em um mesmo nível de comunicação ao minar a dominação de uma determinada língua (um exemplo clássico é quando um turista americano vem ao Brasil: é mais freqüente que tentemos falar o inglês ou que ele tente falar o português?). Um idioma que desempenha tal função é chamado de "idioma internacional", ou "língua-ponte", e deve ser neutro, ou seja, não ser ligado a nenhum país ou cultura nem ter elementos de apenas uma ou algumas línguas ou grupos de línguas, para possibilitar essa igualdade de comunicação entre seus usuários. Muitas vezes se lê o termo esperantista, e muitas conotações são dadas a ele, entre práticas e até políticas (como em "comunista", "nazista" etc.). Prefiro interpretar o termo como "aquele que fala e trabalha em prol do esperanto" (ou seja não interpretar como "membro de uma filosofia", mas como "profissional" ou "trabalhador", como em "maquinista", "frentista" etc.), não precisando ser aplicado a todos os falantes, que podem usá-lo desde a simples finalidade prática, até trabalhar ativamente dentro do movimento esperantista.
2) Ah, é o "idioma da paz", né? Mas por que ele é chamado assim?
Muitos conflitos no mundo são causados pelas diferenças culturais, ou seja, ou um povo não tolera os costumes do outro simplesmente porque são diferentes dos seus, ou um povo domina o outro através da potência militar (como no passado) ou da potência midiológica/econômica (como ocorre hoje) e a ele impõe sua cultura. Na cultura, está embutida a língua, que também se impõe sobre um povo dominado ou acaba sendo usada em conferências e outros eventos e encontros internacionais, favorecendo apenas o povo que a usa. A imposição de um ou mais idiomas a nível internacional como línguas-ponte acaba apenas acirrando a disputa pela hegemonia cultural dos países, gerando uma discordância sem fim. Com o esperanto, nenhum povo ou língua é exclusivamente favorecido, colocando todos os povos no mesmo nível de igualdade de comunicação, o que acontece quando eles se reúnem num plano neutro para resolver seus problemas. Quando essas disputas culturais por favorecimento internacional acabarem ou forem amenizadas, com certeza isso será um grande passo para o entendimento entre as nações. É claro que muitos falam: "o esperanto não é suficiente para pacificar o mundo!". É claro que não, mas é um eficaz instrumento para alcançarmos esse sonho, pois coloca os interlocutores em pé de igualdade, o que é um caminho para o despertar da disposição de todos para se reunir e resolver os problemas do mundo, a começar pelos conflitos culturais! Portanto, um título mais justo para o esperanto seria "a língua da igualdade".
3) Quando foi criado o esperanto? Quem o criou? Por que ele tem esse nome?
O esperanto foi criado pelo oftalmologista judeu-polonês Lejzer Ludwig (Lázaro Luís ou, em esperanto, Lazaro Ludoviko) Zamenhof, que sabia muitas línguas e a partir delas criou pelo menos dois protótipos ("Lingwe Uniwersala" e "Pra-Esperanto") antes de chegar ao projeto final, testando diálogos e traduzindo muitas obras antes de divulgá-lo publicamente. A data considerada como o "aniversário" do esperanto é 26 de julho de 1887, quando Zamenhof, com a ajuda do sogro, consegue publicar o "Primeiro Livro da Língua Internacional" (posteriormente, surge ainda o "Segundo Livro", como complemento ao primeiro), que contém gramática básica, vocabulário, textos e exercícios. Até certo tempo, o esperanto não tinha nome; no "Primeiro Livro", Zamenhof ainda não usou seu nome como autor do livro, mas usou o pseudônimo "Doutor Esperanto" ("esperanto", na própria língua, significa "aquele que tem esperança"). Algumas pessoas começaram a chamar o idioma de "a língua do Doutor Esperanto", mas as outras palavras foram caindo até que se chamasse o idioma simplesmente de "Esperanto". Uma curiosidade: Zamenhof gostava de dizer que ele não era o "criador", mas o "iniciador" do esperanto.
4) Quantas pessoas no mundo falam o esperanto? Onde ele é falado?
Nunca se chegou a um número preciso sobre seu número de falantes, pois muitas pessoas aprendem o esperanto não só por escolas, mas sozinhas, através de cursos por correspondência ou outros métodos auto-didáticos. Eu mesmo vi num livro o nome "esperanto" pela primeira vez, fui pesquisar na Enciclopédia Barsa para ver de que língua se tratava, tomei conhecimento de sua estrutura e vasculhei na Internet cursos de esperanto para ter noções básicas e, mais posteriormente, aperfeiçoar-me nos níveis médio e avançado, além de comprar alguns livros e dicionários; resumindo: aprendi sozinho. Enfim, devido à falta de um padrão para catalogação dos falantes do esperanto e da dispersão dos usuários, os números são calculados através de estimativas de congressos, clubes etc. É comprovado que bem mais de 1 milhão de falantes já usam o idioma de Zamenhof, desde as noções básicas até o emprego em meios técnicos; isso é um dado muito relevante, pois muitos idiomas étnicos (ou seja, falados por minorias étnicas) nem chegam a isso, sendo por isso condenados à extinção (eis também um motivo pelo qual o esperanto pode ser usado para proteger a memória dessas línguas). A partir daí, os dados variam muito, com especulações sobre até 10 milhões de falantes, ainda que muitos considerem isso um exagero. Um site diz que o número de falantes varia entre 100 mil (que seria muito pouco) e 3 milhões. Quanto ao lugar onde ele é falado, lembremos que ele não pertence a nenhum grupo étnico nem a país algum, e por isso não pode ser associado a nenhuma região, em especial. Mas em se tratando de locais onde ele é praticado, podemos encontrar esperantistas em todos os continentes (pelo menos nunca ouvi falar de esperantistas no Pólo Sul...), seja em associações sólidas ou em práticas isoladas; os locais onde o movimento mais está presente é na Europa e, acredite, no Brasil, e a sede da Associação Universal de Esperanto (UEA) está em Roterdã, Holanda.
5) De que línguas veio o esperanto?
Sobre isso, você pode ler o texto "Como Zamenhof criou o esperanto?", disponível em esperanto e em português, com vários detalhes sobre grande parte da gramática do idioma, mas também é possível expressar-se sucintamente quais foram as fontes de inspiração de Zamenhof. Resumindo tudo, costuma-se dizer que 60% do esperanto tem origem latina (latim, francês, espanhol, português, italiano etc.), 30% tem origem anglo-saxônica (inglês, alemão etc.) e 10% tem outras origens. A grande porcentagem latina se deve ao vocabulário, vindo essencialmente dessas línguas, pois os radicais latinos são considerados internacionais. Mas Zamenhof sabia muitas outras línguas e não deixou de absorver o seu melhor para criar sua obra-prima. O texto citado acima informa que a língua, por fora, (radicais, afixos, desinências, a conjunção KAJ - que significa "e" e veio do grego - e a ordem das palavras) tem aspecto ocidental (línguas indo-européias), mas sua organização gramatical (organização das palavras conforme os radicais, ausência dos tempos subjuntivos e do aspecto imperfeito aos verbos, aglutinação - aglomeração de radicais para formação de novas palavras - e grande uso de afixos) sofreu influência oriental (línguas não indo-européias como o turco e o húngaro, que são da família uralo-altaica, à qual também pertence o finlandês, e o hebraico, que é da família camito-semítica, à qual também pertencem o árabe e o aramaico). O que é de concordância geral entre os esperantistas é que o grande conhecimento lingüístico de Zamenhof fez o esperanto abranger uma vasta gama de elementos facilmente reconhecíveis que não só mostram o quanto ele não está centralizado em um grupo exclusivo de línguas, mas como ele é uma ponte eficaz para a rapidez no aprendizado de outros idiomas.
6) Quanto tempo se demora para aprender o esperanto?
Daí, vai depender de muitos fatores. As fontes mais comuns especulam que se possa dominar o básico dentro de pelo menos 6 meses, ou até um ano, devido à regularidade de sua gramática. Mas eu acho que isso pode variar de acordo com muitos fatores:
7) Qual é o símbolo usado para identificar o esperanto?
8) O esperanto não é uma filosofia ou uma religião?
9) Por que o esperanto, mesmo tendo tantos falantes e muitas vezes ser conhecido como "o idioma internacional", é pouco divulgado e quase não se ouve falar dele?
10) Quais são as vantagens da utilização do esperanto?
É de consenso geral que a cor usada nos símbolos esperantistas é o verde, que é a cor da esperança, incluída no significado da palavra "esperanto", ainda que ela não seja obrigatória. Mas esse uso se popularizou tanto que é difícil encontrar alguma coisa esperantista que não seja verde. Quanto aos símbolos, com certeza o mais popular consiste na estrela verde de cinco pontas, com ou sem o E branco central. Também é muito conhecida a bandeira oficializada no primeiro Congresso Universal, ocorrido em 1905, na França, de proporções 2:3 (ex.: se a vertical possui 1 m, a horizontal deve possuir 1,5 m), verde, em cujo canto superior esquerdo se encontra um campo branco com a estrela verde sem o E em seu centro. Outro símbolo usado para identificar a presença do esperanto é o chamado "La Melono" ("O Melão") ou "rugbea pilko" ("bola de rugby"), ou ainda "Esperanto-ovo" (ovo esperantista), devido à sua semelhança com esses objetos, que é o usado neste site, e foi criado por um brasileiro para a comemoração do jubileu centenário do esperanto, ocorrido em 1987 (por isso, ele também é chamado de "jubilea simbolo", ou "símbolo do jubileu"). Acredito que ele é bem mais adequado, pois, além de possuir uma harmonia simétrica, é um símbolo mais particular que a estrela, pois nenhuma outra idéia possui símbolo parecido, levando-nos já diretamente à idéia "esperanto". Já a estrela de cinco pontas, principalmente se ela não leva o E central (que a diferenciaria de outras estrelas de cinco pontas) possui muitos outros significados e empregos. Quanto à bandeira, muitos acreditam que, por se tratar de um idioma, o esperanto não necessita de uma, sendo um símbolo simples o meio mais prático de representá-lo.

Símbolos mais freqüentes para a identificação do esperanto.
Muitos fatores levam as pessoas a pensar isso, mas a resposta definitiva é NÃO. O primeiro é a alcunha de "idioma da paz" que ele leva, fazendo com que se concretizasse um ideal entre os falantes do esperanto, que é essa tendência pacifista. Esse ideal é interpretado por muitos como uma "religião" ou uma "filosofia", mas é somente um sentimento que nasce em muitos após o uso de um idioma neutro que não favorece nenhum povo exclusivamente. O que também muitos chamam de "esperantismo" não é só esse sentimento, mas também, segundo Zamenhof, é a crença na eficácia da adoção de um idioma internacional como língua usada para pacificar lugares dominados pela disputa hegemônica de uma ou outra língua materna e para a publicação de obras de igual interesse a todos os povos. Ele ainda dizia que cada um poderia guardar para si a definição de esperantismo ou o sentimento que ele desperta em cada um, e que os conceitos expressos por ele não são obrigatórios. Assim como também nenhum esperantista era obrigado a seguir uma doutrina pacifista criada também por Zamenhof, chamada "homaranismo", que em si nada tinha a ver com o esperanto. Também é comum a grande relação entre o esperanto e o espiritismo, que usou desse idioma como língua de trabalho e para divulgar várias obras, e por isso muitos afirmam que ambos são interdependentes, o que não é verdade. Para mais informações, visite a página "Explicação de conceitos acerca do esperanto".
Uma das hipóteses escrita para mim por e-mail foi: "será que existem interesses escusos que não permitem uma maior divulgação dele?". A história do mundo nos fornece muitas explicações para isso, pois, assim como a História e por ser ligado a ela, o esperanto é um ser "vivo" sujeito a mutações. Para mim, em primeiro lugar, as duas Guerras Mundiais foram decisivas para o futuro do movimento: na Primeira, tal como ocorreu com vários empreendimentos que poderiam marcar o século XX, foi impossível a reunião de esperantistas de diversos países, principalmente na Europa, foco das duas guerras, atrasando a evolução do movimento; na Segunda, além da impossibilidade de reunião, os esperantistas se viram perseguidos pelos regimes de Hitler e de Stálin, um falando que "o esperanto era a língua que os judeus usariam para dominar o mundo", e outro afirmando que "o esperanto era uma língua da burguesia". Além disso, a imposição das línguas nacionais aos outros povos e o poder de decisão de suas nações não permitiram divulgação e aplicação amplos dele (sobre isso, ler a página "Por que o esperanto é pouco divulgado?"), facilitando a expansão de várias idéias erradas sobre o esperanto, tais como "ele não deu certo", "ninguém o fala", "ele foi extinto" e outros absurdos. Outro problema também é que, às vezes, alguns membros e clubes do mundo esperantista não investem em divulgação e outros recursos para atrair falantes, esperando que novos interessados pelo esperanto apareçam por conta própria e fechando o movimento somente àqueles que já falam esperanto, como se ele fosse um grupo filosófico ou, segundo alguns teóricos, um grupo cultural diaspórico, o que não é verdade.
Muitas vantagens já foram citadas neste e em outras páginas do site, mas podemos resumi-las nos seguintes itens:
| É com muita garra e força de vontade que nós, esperantistas, devemos lutar pela divulgação da idéia de um idioma neutro e internacional para que enfim resolvamos os problemas gerados pelas diferenças lingüísticas. E investir em meios de fazer o público ver que ele é um idioma, e é um idioma vivo, é o melhor meio de fazê-lo. Experimente uma nova perspectiva de intercâmbio cultural e descubra que ser neutro é compreender o mundo e ver seus problemas de uma forma nova! |