Aqui eu apresento dois textos originalmente escritos em esperanto pelo brasileiro Antônio Luís Lourenço dos Santos, que falam das origens lingüísiticas do esperanto e dos conhecimentos lingüísticos de Zamernhof, podendo o leitor conhecer as línguas nas quais ele se baseou para compor o projeto que, mais tarde, ele chamaria de ESPERANTO.
Os esperantistas sabem bem que Zamenhof era um homem genial que dominava muito bem muitas línguas naturais, como o russo (sua língua materna), o alemão, o hebraico, o iídiche (judeu-alemão), o polonês, o francês, o latim e o grego. Além disso, ele sabia um pouco do inglês e do aramaico. Zamenhof usou esse vasto conhecimento para criar o esperanto. Todavia, dois aspectos então o deixavam com medo: gramática e grandes vocabulários. Investigando a literatura esperantista, encontram-se várias informações dignas de conhecimento, que, embora incompletas, dão-nos muitas explicações. Pode-se resumi-las no seguinte:
Gramática - L. L. Zamenhof sabia muito bem o hebraico, e, por isso, uma parte importante da gramática vem dessa língua. Os conhecimentos de hebraico foram ao Doutor Zamenhof muito úteis: ele aproveitou muito mais do que externamente parece para simplificar a língua conforme os moldes hebraicos. Para o vocabulário, o hebraico não pôde ajudar de forma alguma, pois sues radicais não são internacionais; mas a gramática hebraica deu uma enorme inspiração a Zamenhof. Mencionemos somente alguns pontos:
Dentre as experiências do autor do esperanto, houve também a que tratava da necessidade de um "Fundamento Intocável", que no hebraico é a "Bíblia", na qual ninguém tem o direito de mudar ou corrigir coisa alguma; nunca se corrige nem o erro mais evidente na língua hebraica. Somente se menciona na borda da página como se deve ler corretamente a palavra errada, mas esta permanece e é eternamente copiada ou representada sem mudanças. Essa intocabilidade do texto modelar eternizou a unidade da língua hebraica através do mundo. Zamenhof criou o "Fundamento Intocável" para o esperanto, e ainda traduziu a Bíblia, que, para muitas pessoas, ainda é um modelo imutável. Certamente a língua crescerá no uso moderno, todavia, sempre se respeitarão os modelos intocáveis. Para nós, esses modelos são o "Fundamento do Esperanto", a "Crestomatia Fundamental" 2 e outras obras de nosso genial mestre.
Esses princípios experimentados no hebraico através de milênios de vivência consideravelmente simplificaram e facilitaram a gramática do esperanto; mas o aspecto externo da língua, aparentemente, é totalmente ocidental, pois os radicais, afixos e terminações gramaticais internacionais são ocidentais. Dizemos "aparentemente", pois a aglutinação 3 em esperanto também não é ocidental, mas oriental.
Outros pontos gramaticais consideráveis são os seis particípios e a conjunção "kaj" (e), que Zamenhof tirou do grego, e as formas unidas de uma preposição com o artigo, que se baseiam no italiano, como, por exemplo: ĉe l' (em casa de), tra l' (através de), de l' (de).
Em relação à terminação substantiva "o" e à plural "j", o Sr. N. Z. Majmon forneceu uma suposição muito interessante aos estudos esperantológicos. No perfeito livro de estudos de Gaston Waringhien "Língua e Vida - Ensaios Esperantológicos", o Sr. Majmon defende a hipótese de que Zamenhof poderia ter fornecido o final substantivo em esperanto "o" e o plural "j" conforme o modelo do aramaico. Teria eleito Zamenhof, conforme este modelo, a terminação substantiva singular "o" e a plural "oj"? Seria mais lógico supor que, adereçando o esperanto primeiramente ao público europeu, Zamenhof retirou a terminação "o" do italiano (uomo = homo = homem, amico = amiko = amigo, angelo = anĝelo = anjo) ou do espenhol (canto = kanto, estilo = stilo, mano = mano = mão). Todavia, pode ser que inconscientemente justamente a terminação aramaica "o" para muitos substantivos, com seu "j" no plural, fixando-se na memória subconsciente do mestre durante sua tenra juventude, passando pelos modelos italiano e espanhol, ditou ao mestre sua decisão. Seja assim, seja de outra forma, mas a hipótese do Sr. Majmon sem dúvida nos fere os olhos.
Afixos - Em relação aos grandes vocabulários, o problema foi resolvido ao acaso. O próprio Zamenhof conta esse acontecimento em uma carta de 1895 ao Sr. N. Borovko: "Certa vez, quando estava na 6.ª ou 7.ª série do ginásio, desviei minha atenção por acaso à inscrição "shveytsarskaya" (portaria), que eu já vi muitas vezes, e depois a tabuleta "konditorskaya" (doceria). Este "skaja" me despertou interesse, e mostrei a mim mesmo que os sufixos dão a possibilidade de, a partir de uma palavras, fazer outras que não precisam ser decoradas separadamente. Este pensamento me possuiu por inteiro, e subitamente senti a terra sob os pés. Sobre os terríveis vocabulários gigantescos caiu um raio de luz, e eles começaram a encolher rapidamente diante de meus olhos. "O problema está resolvido!" - então eu disse. Captei a idéia dos sufixos e comecei a trabalhar muito nesta direção. Compreendi que grande significado pode ter para a língua conscientemente criada o pleno uso dessa força que em línguas naturais funciona só em parte, cegamente e de forma vazia".
Em línguas nacionais, há afixos que freqüentemente têm significados diferentes, e, do contrário, também existem vários afixos que expressam a mesma idéia; então, das muitas línguas que Zamenhof sabia, ele pegou seus afixos para economizar ao aprendiz a aquisição de muitas palavras à parte. Ele escolheu os afixos que têm similares em muitas línguas diversas facilitando assim a memorização de palavras para diversos povos. Sobre a etimologia dos afixos, observemos a lista abaixo, não esquecendo que alguns afixos foram processados por Zamenhof e outros foram oficializados pela "Academia de Esperanto".
a) Do francês: bo - ad - aĵ - on.
b) Do alemão: ge - mis - ej - em - er - ig - in - ing.
c) Do russo: pra - ar - ĉj - eg - il - nj.
d) Do latim: dis - mal - re - an - ind - ist - ul - um - fi - end.
e) Do grego: ek - id - ism.
f) Do inglês: ebl.
g) Do italiano: aĉ - ec - estr.
h) Das línguas neolatinas: eks - et.
i) Das línguas eslavas: uj.
j) O sufixo "iĝ", usado para a idéia de "tornar-se",
aproxima-se de um sufixo italiano, embora isso seja mera coincidência.
k) O sufixo "obl" é composto pela vogal alemã "o" e pelas
consoantes "bl" do inglês (doppelt = double = duobla = duplo).
l) O sufixo "op" é uma inversão da preposição distributiva "po",
que em esperanto tem o mesmo significado da equivalente russa. No "Plena Ilustrita Vortaro"
(Dicionário Ilustrado Completo), encontramos um exemplo dela: Ili
marŝis po kvar en vicoj = Ili marŝis kvarope en vicoj = Eles marcharam
em filas de quatro.
Ainda lembremos, algumas vezes, que embora um sufixo ou outro vem de uma língua definida, pode-se encontrar esse mesmo afixo em várias outras línguas.
Tabela dos correlativos - Também é mencionável a origem da "Tabela dos correlativos". Zamenhof não a inventou arbitrariamente, e seus elementos não foram escolhidos ao acaso. Há tabelas incompletas em línguas eslavas, como, por exemplo, no búlgaro, no russo, no letão, no lituano, no tcheco, no sérvio e no eslovaco. Zamenhof as estudou e processou logicamente. Vejamos abaixo:
"I" - a letra inicial "i" vem do alemão "irgendein"
(de alguma forma), "irgendeiner" (alguém).
"Ĉ" - poderia bem ser do polonês "wszyscy"
(todos).
"ES" - a terminação "es" concorda com o genitivo do
alemão "uesuessen" (de quem?), "des - dessen" (dessa pessoa).
"IE" - a terminação "ie" faz lembrar o polonês "gdzie"
(onde?), "nigdzie" (em nenhum lugar).
"K" - a letra inicial "k" corresponde à palavra
interrogativa "kia" (como? de que tipo?).
"T" - a letra inicial "t" corresponde à palavra
demonstrativa "tia" (desse tipo).
"NEN" - negativa "nen".
Estas três últimas (K - T - NEN) são comuns a muitas línguas, como o búlgaro, o português, o russo, o italiano, o lituano, o esloveno, o tcheco, o croata, o letão, o sérvio, o espanhol, o romanche (ou rético), o francês, o polonês e o eslovaco.
Conclusão - De tudo dito acima, podem-se ver diversos aspectos da origem das palavras em esperanto, e principalmente a genialidade de nosso caro e memorável Mestre Zamenhof, que não foi somente um homem genial, mas também possuiu desde a juventude saberes que vários lingüistas nunca adquirem sobre a existência e a estrutura de línguas que funcionam internacionalmente; por isso, ele criou nossa admirável língua com perfeita segurança, conforme modelos vivos, e nossa língua internacional viva já se tornou centenária (atualmente com 112 anos).
Notas do tradutor:
1 Por exemplo: a palavra "pano" (pão) vem antes da
palavra "paneo" (pane, falência), pois o radical da primeira
("pan-") é alfabeticamente anterior ao da segunda
("pane-").
2 "Crestomatia Fundamental" é
uma grande coletânea das obras de Zamenhof unidas em uma só coleção, que
tratam em especial do esperanto.
3 Fenômeno muito comum em línguas
como o húngaro, o alemão e o turco, onde podemos formar infinitas palavras
através da simples junção de radicais, afixos etc. Ex.: "sukero"
(açúcar) + "kano" (cana) = "sukerkano" (cana de açúcar).
Iídiche - Zamenhof sabia bem o iídiche. A primeira língua do menino Lázaro foi um jargão que ele aprendeu de sua mãe, Liba, do bairro em que ele nasceu e na escola hebraica elementar.
Alemão - Zamenhof sabia perfeitamente o alemão. De sua mãe, Liba, ele o aprendeu. Ele estudou o alemão na Ginásio Real de Bialystok (três anos), no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia (cinco anos) e na Universidade de Moscou (um ano).
Russo - Zamenhof sabia bem o russo, pois ele era sua língua materna. Em carta de 8 de março de 1906 a Th. Thorsteinsson, Zamenhof diz: "Minha língua materna é a russa". O Prof. G. Waringhien, em seu estudo sobre Lázaro Zamenhof, publicado em "Esperanto" n.º 649, de dezembro de 1959, diz: "Zamenhof sempre enxergou o russo como sua língua materna... e sentia a Lituânia como sua pátria". Em carta de 21 de fevereiro de 1905 a A. Michaux, Zamenhof conta: "A língua materna sempre foi para mim o objeto mais querido do mundo. Sempre amei mais essa língua, na qual fui educado, isso é ... a língua russa; eu a aprendi com o maior prazer; já sonhei em tornar-me um grande poeta russo. Também aprendi com prazer diversas outras línguas, mas elas me interessavam mais na teoria que na prática... Em mia infância muito amei de paixão a língua russa e todo o reino russo; mas logo me convenci de que paga-se meu amor com ódio".
Hebraico - Zamenhof sabia muito bem o hebraico. Em escolas judaicas, a língua hebraica era obrigatoriamente ensinada aos garotos. Zamenhof freqüentava a escola elementar hebraica e aprendia o hebraico. Marcos, pai do nosso mestre, foi um ótimo hebraísta, ensinou o hebraico a seu filho e, por isso, Zamenhof aprendeu-o a fundo.
Francês - Zamenhof sabia bem o francês. Ele o aprendeu de sua mãe, Liba. Seu pai, na escola estatal de ensino médio, ensinava geografia e línguas modernas, e ajudou seu filho a aprender o francês. Ele estudou francês no Ginásio Real de Bialystok e no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia.
Polonês - Zamenhof sabia bem o polonês. Ele o aprendeu já em Bialystok, Rússia (hoje Polônia). Em carta de 21 de fevereiro de 1905, ele revelou a A. Michaux que ele ele falava livremente em polonês. Com seus familiares, Zamenhof falava o russo, a língua do Estado, pois Varsóvia pertencia à Rússia. Só quando havia um visitante polonês, Zamenhof, por gentileza, usava o polonês. Por isso, os visitantes poloneses na casa de Zamenhof ouviam a língua polonesa.
Latim - Zamenhof sabia bem o latim. Em dezembro de 1873, Zamenhof mudou-se para Varsóvia e e começou a aprender latim sozinho. De agosto de 1874 até junho de 1879, ele o estudou no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia. Em uma entrevista de agosto de 1907, Zamenhof contou que, na universidade, ele dedicou atenção importante à língua latina.
Grego - Zamenhof sabia muito bem o grego. Em dezembro de 1873, Zamenhof começou a aprendê-lo por conta própria. Ele também o estudou no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia. Apesar de Zamenhof ter bom apontamento principalmente em grego, ele todavia não se julgou competente o suficiente para fazer uma tradução do Novo Testamento da língua grega. No prefácio de "Gênesis - Primeiro livro de Moisés", Zamenhof conta: "Há tempos atrás já pensava em começar uma tradução sistemática da Bíblia. Deixando o Novo Testamento a outros tradutores mais competentes, escolhi o Antigo Testamento".
Inglês - Zamenhof lia a língua inglesa. Em carta de 1895 a N. Borokvo, Zamenhof diz: "Estando na 5.ª série do ginásio, comecei a aprender inglês". Em carta de novembro de 1902 a E. A. Lawrence, Zamenhof escreve: "Perdoe por lhe escrever em esperanto, pois domino muito pouco a língua inglesa".
Italiano - Não há indícios diretos de que Zamenhof sabia o italiano. No artigo "Essência e Futuro da Idéia de uma Língua Internacional", escrito em 1899, Zamenhof diz: "No que consiste a superioridade do esperanto diante do volapuque 1, é claro que não podemos analisar aqui em todos os detalhes; como exemplo, mostrarei que, enquanto o volapuque soa muito selvagem e indelicado, o esperanto é cheio de harmonia e estética, e por si faz-nos lembrar do italiano". No artigo "Esperanto - Nova Língua Internacional", publicado em "The Independent", Nova Iorque, agosto de 1904, Zamenhof, entre outras coisas, escreve: "Apesar de sua construção puramente matemática, todavia, o esperanto agrada aos ouvidos. Sua sonoridade é muito parecida com a do italiano". A língua italiana é reconhecida a língua que soa mais belamente. Exemplos citados acima nos fazem crer que Zamenhof estudou italiano.
Outras línguas - Zamenhof conhecia várias outros idiomas, não como um especialista profissional. Entre eles, estão: espanhol, holandês, mordoviniano 2, lituano, árabe, norueguês, dinamarquês, islandês e aramaico. Dessas línguas ele pegou muitas palavras, afixos e a gramática.
Notas do tradutor:
1 "Volapuque" (ou "volapük"
= "vol", mundo + "pük", fala) foi um idioma inventado em
1879 pelo alemão Johann Martin (João Martinho) Schleyer com a mesma finalidade
do esperanto, obtendo um certo sucesso até a criação do idioma de Zamenhof,
quando muitos clubes volapuquistas começaram a usá-lo.
2 Língua originária da atual
República da Mordóvia, Rússia.